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Literatura e Bíblia em diálogo: Primeiros passos

Cristhiano Aguiar

 

Basta folhearmos brevemente algumas das obras clássicas da literatura brasileira e encontraremos, com pouca dificuldade, um fecundo diálogo entre páginas literárias e a Bíblia. Livros fundamentais como Dom Casmurro, Grande Sertão: Veredas, A invenção de Orfeu, Lira dos Vinte Anos, Auto da Compadecida… A conversa estará lá. Às vezes discreta, quase imperceptível nas entrelinhas; outras vezes com imagens, cenas, metáforas e personagens cuja inspiração foi retirada diretamente dos livros que compõem o Livro dos Livros. Isso, claro, não vale apenas para a literatura brasileira, mas também para as expressões literárias tanto em língua portuguesa, quanto em diversas outras línguas e sistemas literários.

A aproximação da literatura com o texto bíblico poderia ser explicada apenas por estarmos imersos em uma visão de mundo muito influenciada pelo imaginário religioso judaico-cristão? Sem dúvidas. No entanto, à medida em que o fio se desenrola e passamos a compreender a riqueza das relações entre texto literário e o texto bíblico, podemos perceber que há na Bíblia – para além das suas dimensões teológicas e sacras, dimensões essas importantes na vida de milhares de pessoas – uma riqueza literária, histórica e ética próprias. Escritoras e escritores, geração após geração, abrem as páginas da Bíblia, ou abrem suas intuições criativas ao imaginário bíblico, porque nela encontram uma matéria-prima essencial aos seus próprios interesses criativos.

Nesse sentido reside a importância de lermos a Bíblia como literatura, também. A partir das ferramentas da Teoria Literária, da Crítica Literária, das diferentes Teorias da Recepção e do Efeito, da Historiografia, Sociologia, Filosofia, entre outras disciplinas, podemos perceber melhor contextos de produção e as complexidades das estratégias de construção de sentido dos textos bíblicos e das obras literárias que com a Bíblia dialogam. O saldo não pode deixar de ser mais positivo: amplia-se o conhecimento tanto da literatura, quanto da Bíblia.

Embora esse seja um campo de pesquisas forte em outros contextos acadêmicos, no Brasil ainda damos os primeiros passos. Por isso, gostaria de deixar às leitoras e leitores, interessadas e interessados em conhecer um pouco mais das possibilidades de leitura literária da Bíblia, algumas sugestões. São obras, ou capítulos, disponíveis em língua portuguesa, encontráveis em livrarias, bibliotecas, sebos, ou ebooks. Vocês vão notar que muitas pesquisas podem e devem acontecer em uma perspectiva multidisciplinar, não se restringindo ao campo mais específico da Letras, por exemplo.

Vamos, então, às sugestões. Duas obras importantes, pioneiras nas suas reflexões, são a monumental Mimesis, de Erich Auerbach (Editora Perspectiva), e A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter (Cia das Letras). No caso do primeiro livro, Auerbach realiza, no capítulo de abertura, “A cicatriz de Ulisses”, uma comparação entre diferentes formas de representação da realidade e da vida cotidiana, tomando como exemplos a poesia homérica e a prosa do Antigo Testamento. Alter, por outro lado, faz do seu livro uma boa introdução à leitura literária bíblica em geral, embora seu foco seja a prosa. A arte da narrativa bíblica nos conduz a uma fascinante discussão sobre as relações entre ficção e história na Bíblia, bem como sistematiza de que maneira os autores bíblicos trabalharam, de forma às vezes muito particular, elementos importantes de qualquer narrativa, tais como personagem, diálogo, cena e espaço.

Debates sobre autoria e estilo se encontram no capítulo “A Bíblia hebraica” do livro Abaixo verdades sagradas, publicado pela Cia das Letras, do crítico literário e professor de literatura Harold Bloom, outro pioneiro do nosso campo de estudos. Em meio a estudos sobre Dante, Shakespeare e Freud, Bloom dedica todo um capítulo para discutir a Bíblia como uma obra literária cuja autoria é controversa. Além disso, a partir de um enfoque em Jeremias e Jó, Bloom formula considerações éticas e estilísticas em seu capítulo. Misturando crônica, diário de leitura e ensaio, o professor e tradutor português Frederico Lourenço anota, em capítulos curtos, considerações literárias e tradutórias sobre o Antigo e o Novo Testamento em O livro aberto: leituras da Bíblia, publicado ano passado pela editora Oficina Raquel. Teologia, crítica literária e semiótica se articulam nas leituras pioneiras de Júlio Paulo Tavares Zabatiero e João Leonel em Bíblia, Literatura e Linguagem (editora Paulus). Por fim, não posso deixar de sugerir o Guia Literário da Bíblia, organizado pelo já citado Robert Alter e pelo crítico literário Frank Kermode (Editora Unesp). A obra compila capítulos dedicados a livros da Bíblia, ou a temas mais gerais como “Características da antiga poesia hebraica”, por exemplo.  Embora o guia, por ser uma obra de autoria coletiva, padeça de desníveis de qualidade, ainda assim é uma obra de referência que pode ajudar muito nos primeiros passos do estudo proposto.

Como foi dito antes, essa é somente uma lista introdutória, que não esgota a bibliografia atualmente disponível no Brasil. Muitas portas de pesquisa e estudo podem ser abertas. Nosso objetivo, enquanto grupo de pesquisa, consistirá em tentar contribuir para o crescente campo de estudos literários sobre a Bíblia. A todos que nos visitam, sintam-se muito bem-vindos.

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