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A Bíblia de Lourenço: uma versão para quem quer ler a Bíblia como literatura

A Bíblia de Lourenço, publicada recentemente pela Companhia das Letras, é a versão certa para quem quer ler a Bíblia como literatura.

Anderson de Oliveira Lima.

A Companhia das Letras está publicando, aos poucos, uma nova tradução da Bíblia que merece ser conhecida. O projeto do linguista português Frederico Lourenço pretende, em seis volumes, oferecer uma nova tradução bem literal que parte do texto bíblico em grego e promete revelar novas nuances mesmo aos leitores acostumados aos textos bíblicos.

Além da excelente tradução, esta nova versão traz um grande número de notas com ricas informação de caráter linguístico e histórico, mas que não apresentam qualquer tipo de preferência religiosa ou pretensão dogmática. Por não ser produzida por instituições, comentaristas e tradutores com vínculos e objetivos religiosos, este parece ser o texto certo para quem quer ler a Bíblia, em língua portuguesa, desde uma perspectiva literária.

 

 

O projeto prevê seis volumes, mas, até o momento, a Companhia das Letras disponibilizou apenas os dois primeiros, com todo o conteúdo do Novo Testamento cristão. No primeiro volume (publicado em 2017) temos os quatro evangelhos; no segundo (de 2018) estão reunidos todos os livros que completam o Novo Testamento, de Atos dos apóstolos a Apocalipse. Entretanto, acreditamos que o melhor ainda está por vir. Os próximos quatro volumes prometem a tradução de todos os livros que compõem a Septuaginta (LXX), a Bíblia em língua grega que era lida pelos judeus da diáspora e pela maioria dos primeiros cristãos.

Nesse aspecto, vale a pena destacar ao leitor que, do quarto ao sexto volumes, não teremos textos canônicos, textos considerados sagrados por cristãos ou judeus; essas religiões elegeram a versão hebraica para compor seus respectivos cânones e produzir, posteriormente, suas próprias traduções e leituras. A Bíblia de Lourenço, por sua vez, traduzirá a Septuaginta, uma coleção de livros bíblicos que haviam sido traduzidos alguns séculos a.C. em Alexandria para atender aos interesses de comunidades formadas por judeus que falavam grego. Estes livros foram muito populares (e sagrados para seus antigos leitores) até a instituição dos cânones oficiais por parte das autoridades judaicas e cristãs, mas depois caíram em desuso. Isso talvez diminua o interesse de uma grande parte do público leitor da Bíblia que está interessa, antes de mais nada, nas Escrituras Sagradas; mas não diminui o valor do projeto que oferecerá ao leitor brasileiro documentos que, do ponto de vista da pesquisa bíblica, há muito eram esperados.

Além da ótima tradução, das instrutivas notas de rodapé e introduções, e do fato de prometer uma inédita tradução da Septuaginta para o português, a publicação conta ainda com outras virtudes que merecem atenção: é impressa em papel de qualidade, com excelente diagramação, capa dura e marcador de páginas. Enfim, ela conta com todos os ingredientes para que seja bem aceita no mercado brasileiro (acadêmico e laico) e influencie os estudiosos pelos próximos anos. Recomendamos a leitura dos dois primeiros volumes e compartilhamos nossa curiosidade sobre o que nos trará os próximos.

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